sexta-feira, 25 de junho de 2010

Bide e Marçal

"Era tão forte a ligação entre Alcebíades Barcelos, o Bide, e Armando Marçal, uma das duplas de compositores mais bem sucedidas na música popular brasileira, que ambos se misturaram no imaginário popular. Quando da realização da Bienal do Samba pela TV Record de São Paulo, a produção do evento decidiu convidar compositores importantes no gênero, para apresentarem suas obras e serem homenageados, independente da competição.
            Entre os convites expedidos individualmente, estava lá um para o “Senhor Bide Marçal”, os produtores pensando que a dupla fosse uma só pessoa. De certa forma não erraram, pois durante toda a vida musical que levaram juntos, Bide e Marçal se completaram a ponto de criarem um estilo tão definido que seus sambas eram reconhecidos aos primeiros acordes.
            Armando Vieira Marçal nasceu no Rio de Janeiro, filho de Vicente Marçal e Carolina Marçal, no dia 14 de outubro de 1903. Sua família era humilde e teve infância difícil, mal podendo cursar o primário. Iniciou-se cedo na profissão de lustrador de móveis na Casa Pratt e, mesmo tendo sucesso como compositor e ritmista, não a deixou. Ao morrer, em 20 de junho de 1947, era o lustrador dos móveis do Hotel Vera Cruz. à rua D. Pedro I, sempre no Rio de Janeiro.
            Casado com D. Ângela Delfina Marçal, foi pai de três filhos, inaugurando verdadeira dinastia de sambistas. O terceiro filho, Nilton (os outros dois, Valdir e Iara, morreram cedo), viria a se tornar o conhecido Mestre Marçal, um dos maiores ritmistas da música popular brasileira, mestre de bateria da Escola de Samba da Portela. e o neto, Marçalzinho. continuaria a tradição como ritmista, fazendo carreira nos Estados Unidos.
            Armando Marçal participou da primeira gravação com instrumentos de ritmo feita no Brasil, a de Na Pavuna, de autoria de Almirante e Homero Dornelas, que se assinava Candoca da Anunciação. Marçal, Bide. João da Baiana. Bucy Moreira. Raul Marques e outros que se tornaram os pioneiros. Marçal trabalhava como ritmista em emissoras de rádio, desde 1934. e gostava de promover rodas de samba em sua casa, freqüentadas por amigos compositores e por astros consagrados como Francisco Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, entre outros.
            O maior sucesso da dupla Bide/Marçal foi o samba Agora É Cinza, que tem uma história curiosa. Oferecido no Café Nice ao cantor Mário Reis, junto com o samba Vivo Sonhando, foi em princípio recusado. tendo Mário aconselhado que as músicas fossem apresentadas primeiro a Francisco Alves. Isso porque eles estavam meio brigados desde que resolveram não gravar mais em dupla e Mário queria fazer uma gentileza ao colega. Francisco Alves escolheu Vivo Sonhando e Mário Reis gravou a que sobrou, Agora E Cinza, que se tornou um clássico, um dos cinco maiores sambas de todos os tempos. segundo pesquisa junto a especialistas.
            Além dos grandes sambas que compunham juntos. Bide e Marçal – como quase todos os compositores de sua geração – eram excelentes seresteiros e gostavam das valsas brasileiras em moda. São deles, como exemplos, as valsas Silêncio, composta em 1941, e Prece À Lua, feita em 1945.
            Dois anos depois, em 1947, bastante jovem, com apenas 44 anos de idade, um ataque cardíaco surpreendeu Armando Marçal. quando visitava as dependências da gravadora RCA Victor, no Rio de Janeiro. A morte dele desfazia a famosa dupla, mas seus sambas continuam a ser gravados, com sucesso, até hoje."


A Obra de Bide de Marçal




A mim você não engana (Marçal / J. Portela)
A primeira vez (Marçal / Bide)
Agora é cinza (Marçal / Bide)
Alma que chora (Marçal / Bide)
Ama-se uma vez (Marçal / Bide)
Amor (Marçal / Bide)
Ando na orgia (Marçal / Bide)
Barão das cabrochas (Marçal / Bide)
Companheiro dileto (Marçal / Bide)
Cruel ciúme (Marçal / Bide)
Deixa-me partir (Marçal / Bide)
Deixaste saudade (Marçal / Bide)
Dou-te um adeus (Marçal / Bide)
Durmo sonhando (Marçal / Bide)
Foi você (Marçal / Bide)
Gostei do teu olhar (Marçal / Antônio Santos)
Já é demais sofrer (Marçal / Bide)
Jamais amei (Marçal / Bide)
Leve-me para Bahia (Marçal / Bide)
Louca pela boêmia (Marçal / Bide)
Madalena (Marçal / Bide)
Madrugada (Marçal / Bide)
Maria do babado (Marçal / Bide)
Me deixa viver (Marçal / Bide)
Meu perdão nunca terás (Marçal / Bide)
Meu primeiro amor (Marçal / Bide)
Meu sofrer (Marçal / Bide)
Meu sofrimento (Marçal / Bide)
Não diga a minha residência (Marçal / Bide)
Não pretendo mais amar (Marçal / Manuel Vieira)
Ninguém fura o balão (Marçal / Bide)
Ninguém me vê sorrir (Marçal / Bide)
Nosso romance (Marçal / Bide)
Nunca mais (Marçal / Bide)
O meu mundo é ela (Marçal / Bide)
Olha a sua vida (Marçal / Bide)
Perdão, meu bem (Marçal / Bide)
Pra que chorar (Marçal / Bide)
Prece à lua (Marçal / Bide)
Prefiro viver cansado (Marçal / Bide)
Quanta mentira (Marçal / Bide)
Quanto eu sinto (Marçal / Bide)
Que bate-fundo é esse (Marçal / Bide)
Quem mandou iaiá (Bide / Benedito Lacerda e Baiaco)
Quem mandou você beber?
Quem vem lá? (Bide / Marçal)
Recordações de um passado (Bide / Benedito Lacerda)
Remo no mar (Bide / Valdemar Silva)
Saci-pererê (Bide / J. Aimberê)
Sambista magoado (Bide / Sebastião Gomes)
Santo Antônio, São Pedro, São João (Bide / Herivelto Martins)
São Tomé (Bide / Alberto Ribeiro)
Se ela não vai chorar, nem eu (Bide / Marçal)
Se eu fosse pintor (Bide / Alberto Ribeiro)
Se o samba morrer (Bide / Walfrido Silva)
Se ela não vai chorar, nem eu (Marçal / Bide)
Sem meu tamborim, não vou (Marçal / J. Portela)
Silêncio (Marçal / Bide)
Sofri (Marçal / Bide)
Sorrir (Marçal / Bide)
Tua beleza (Marçal / Bide)
Vem mulata (Marçal / Bide)
Vila Isabel (Bide / Marçal)
Violão amigo (Bide / Marçal)
Vira esses olhos pra lá (Bide / Marçal)
Vivo deste amor (Bide / Marçal)
Você foi embora (Bide / Marçal)
Você me deixou (Marçal / Ataulfo Alves)
Você me deu o bolo (Bide / Alberto Ribeiro)
Você não jurou (Bide / Marçal)
Você não jurou (Marçal / Bide)
Você não sabe, amor (Bide / Ataulfo Alves)
Você partiu (Bide / Marçal)
Você sabe lá o que é isso (Bide / Marçal)
Vou ali, mas volto já (Bide / Haroldo Lobo)
Vou te dar (Bide / Getúlio Marinho)
Vou-me embora, amor (Bide / Haroldo Lobo)


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Paulo da Portela

Paulo Benjamin de Oliveira, tem sua história confundida com o surgimento e a fixação do próprio samba na cidade do Rio de Janeiro. De origem negra e proletária, vivendo no subúrbio carioca de Oswaldo Cruz, logo percebeu a importância desse gênero musical e a possibilidade de organização e valorização de sua gente a partir do samba.
Paulo foi capaz de interferir positivamente e contribuir para que o samba, da forma como era cultivado nos morros, se popularizasse.
Nascido em 17 de junho de 1901 (comemoramos seu centenário em 2001), na Santa Casa de Misericórdia, era filho de Joana Baptista da Conceição e Mário Benjamin de Oliveira, que mais tarde abandonaria a mulher e os três filhos, tornando-se uma figura nebulosa na vida de Paulo.

Paulo só teve a instrução primária e trabalhou desde cedo para ajudar a família que mudou-se para Oswaldo Cruz no início dos anos 20. O subúrbio de então era comparado a uma roça, sem estrutura apropriada para abrigar a população de baixa renda. Porém, os pobres se divertiam em fandangos e em animados pagodes. Como muitos moradores vinham do Estado do Rio ou de Minas Gerais, cultivava-se o Jongo e o Caxambu.

Aos 20 anos de idade, Paulo já era conhecido por suas boas maneiras e jeito elegante em se vestir, apesar dos poucos recursos. Freqüentador assíduo de festas, ajudava em suas organizações tendo fundado o primeiro bloco (e pretenso rancho como o costume da época)de Oswaldo Cruz: o Ouro Sobre Azul.

Os pais de Natal, que viria a ser, muito mais tarde, presidente da G.R.E.S. Portela, relacionavam-se com alguns sambistas do bairro do Estácio, entre eles os jovens bambas Ismael, Aurélio, Baiaco e Brancura, que passaram a travar relacionamento com Paulo.

Em 1922, ao lado dos companheiros Antônio Rufino dos Reis e Antônio da Silva Caetano, Paulo fundou o bloco Baianinhas de Oswaldo Cruz. Vem dessa época o nome artístico Paulo da Portela (referência à Estrada do Portela), que servia para diferenciá-lo de outro Paulo, também sambista, de Bento Ribeiro. O nome Portela ficou conhecido inicialmente a partir do próprio Paulo. A escola veio depois.

Os três companheiros passaram a se reunir sob uma mangueira no número 461 da estrada do Portela, visando uma atividade sócio-cultural que reunisse os amigos. Foi um sucesso e virou uma referência de samba no bairro.

No dia 11 de abril do ano de 1926, fundou-se o Conjunto Carnavalesco Escola de Samba de Oswaldo Cruz. Antes de estabelecer-se na Estrada do Portela, a futura agremiação teve muitas sedes provisórias. A mais curiosa foi um vagão do trem que partia da Central do Brasil às 6:04h em direção ao subúrbio, onde os sambistas se reuniam diariamente para passar o samba. Um grupo saía de Oswaldo Cruz para encontrá-los pontualmente na Central do Brasil e dar início à atividade. Aos domingos, todos conheciam os sambas ensaiados durante a semana. Conta-se que Paulo advertia quem se comportava mal e dava bom exemplo usando terno, gravata e chapéu, sendo seguido por alguns companheiros. "Seu" Paulo, como fazia questão de ser chamado, gostava de ver todos com "pés e pescoços ocupados". Paulo da Portela tinha consciência de que a atividade artística que produziam era rica e poderia tornar-se profissional, daí a preocupação em diferenciar a imagem do sambista do malandro vadio perseguido pela polícia. Paulo era conhecido por "professor" e é assim que muitos sambistas, ainda hoje, se referem a ele.

A Portela apresentou-se pela primeira vez com o nome "Quem Nos Faz É O Capricho", no carnaval de 1930. A partir de 1931, desfilou com o nome de "Vai Como Pode". A partir do dia 1 de março de 1935, a escola assumiu o nome G.R.E.S. Portela, a pedido de um delegado de polícia que não gostava do antigo nome.

Inúmeros depoimentos dão testemunho da criatividade, inteligência e liderança de Paulo da Portela, de fato um verdadeiro professor que, apesar do baixo nível de escolaridade, lia muito e expressava-se muito bem, capaz de memoráveis discursos improvisados. Seus sambas cantam o próprio samba e o jeito simples da vida suburbana, cantam o amor da forma mais singela e terna, exaltam a mulher e a cidade que o conheceu e o aplaudiu. Paulo da Portela foi um sambista, mas também um cronista de sua gente simples que tanto soube valorizar.

Paulo afastou-se de sua escola querida em 1941 após desentendimento em pleno desfile, saindo magoado como revelam os versos de O Meu Nome Já Caiu No Esquecimento: O meu nome já caiu no esquecimento/ O meu nome não interessa a mais ninguém/ E o tempo foi passando/ E a velhice vem chegando/ Já me olham com desdém/ Ai quantas saudades/ De um passado que se vai no além/ Chora, cavaquinho, chora/ Chora, violão, também/ O Paulo no esquecimento/ Não interessa a mais ninguém/ Chora, Portela/ Minha Portela querida/ Eu que te fundei/ Serás minha toda vida.

Paulo saiu da Portela e levou seu carisma para a Lira do Amor, pequena escola que o recebeu de braços abertos. Poderia ter ido para o Estácio ou a Mangueira, onde tinha companheiros como o compositor Cartola, mas já era muito conhecido e foi emprestar seu nome e sua imagem a Lira do Amor, escola de Bento Ribeiro.

Paulo faleceu em 31 de janeiro de 1949, vítima de um ataque cardíaco. Seu cortejo fúnebre foi acompanhado por cerca de 15.000 pessoas. O comércio de Madureira fechou na véspera de mais um carnaval para chorar de saudade por seu poeta e professor.

Nas inúmeras rodas de samba que alegram a cidade, Paulo da Portela é lembrado pelos versos de O Quitandeiro (samba cuja segunda parte é assinada por Monarco, compositor e integrante da Velha Guarda da Portela). Cocorocó é outro divertido samba, para sempre registrado na voz de Clementina de Jesus.

No ano de seu centenário de nascimento, esperava-se uma homenagem maior da agremiação que ajudou a fundar. Mas a Portela não correspondeu aos desejos dos admiradores da obra de Paulo da Portela. No carnaval de 2001, o professor foi homenageado pelo bloco Mis a Mis com o enredo "De Pés e Pescoços Ocupados".


Bibliografia:
SILVA, Marília Trindade Barboza da e MACIEL, Lygia dos Santos. Paulo da Portela; traço de união entre duas culturas. Rio de Janeiro, FUNARTE, 1979.

CABRAL, Sérgio. AS Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Lumiar Editora, 1996.
Composições de Paulo da Portela:

Linda Guanabara (Paulo da Portela)
Homenagem ao Morro Azul (Paulo da Portela)
Para que havemos de mentir (Paulo da Portela)
Cantar de um Rouxinol (Paulo da Portela)
Teste ao Samba (Paulo da Portela)
Conselho (Lincoln Pereira de Almeida/ Paulo da Portela)
Deus te Ouça (Cartola/ Paulo da Portela)
O meu nome já caiu no esquecimento (Paulo da Portela)
Orgulho e Hipocrisia (Paulo da Portela)
Linda Borboleta (Paulo da Portela/Monarco)
Cocorocó (Paulo da Portela)
Ópio (Paulo da Portela/Casquinha)
Cantar para não chorar (Heitor dos Prazeres/ Paulo da Portela)
Este mundo é uma roleta (Paulo da Portela/Monarco)
Pam Pam Pam (Paulo da Portela)
Coleção de Passarinhos (Paulo da Portela)
Ouro desça do seu trono (Paulo da Portela)
O Grande Fingimento (Paulo da Portela)
Quitandeiro (Paulo da Portela)
Serei Teu Ioio (Paulo da Portela)
Cidade Mulher (Paulo da Portela)
Cavaleiro da Esperança (Paulo da Portela/Monarco)
Olhar Assim (Paulo da Portela)